Como Ouvir a Voz do Inconsciente

 

Chamei Maria de Amélia;

Tirei da bolsa as chaves de casa, ao invés de tirar meu crachá;

Tive 3 namorados chamados Rafael, que eram muito semelhantes, em todos os sentidos;

Sempre me senti excluído da minha turma de escola;

Todos os meus chefes anteriores – e o atual, inclusive – me assediam moralmente;

Toda vez que meus projetos começam a dar certo, eu dou um jeito de me autossabotar;

Falo uma coisa, mas minhas ações sempre dizem o contrário.

Quem nunca praticou alguma dessas ações? Quem nunca se comportou dessa forma ou de forma parecida? Querendo dizer ou fazer algo, mas tendo como resultado exatamente o oposto do que esperávamos? Todos nós, sem dúvida.

A Bíblia já falava sobre isso, há tempos. Em Romanos 7,15, São Paulo diz: “Pois não compreendo meu próprio modo de agir; porquanto o que quero, isso não pratico; entretanto, o que detesto, isso me entrego a fazer.

Psicanaliticamente falando, Freud deixou bastante claro, no começo do Século XX, o sentido dessas situações: “O Ego não é o senhor em sua própria casa.” Ou seja, existe uma força vulcânica, dentro de cada um de nós, que teima em não seguir o que deseja nosso racional. À essa força, ele deu o nome de INCONSCIENTE.

O inconsciente se manifesta em suas formações, principalmente nos SONHOS, nos ATOS FALHOS e naquilo que se REPETE em nossas vidas, sem que consigamos entender o motivo. A interpretação dos sonhos e dos atos falhos (Estou em um jantar importante e tudo o que não posso fazer é derrubar vinho na mesa. Adivinha o que eu faço?) deve ser feita quando a pessoa está se submetendo à psicanálise ou alguma outra abordagem psicoterapêutica que enfatiza o papel do inconsciente na vida humana. Caso contrário, corremos o risco de fazer uma análise selvagem. Ou seja: nada a ver.

Por isso, a interpretação dos sonhos, segundo Freud, passa longe daquela que é dada pelas revistinhas das bancas de jornais e, até mesmo, dos sonhos premonitórios, como os citados na Bíblia. Dessa forma, sonhar com água pode significar algo totalmente diferente para duas pessoas, já que elas não têm a mesma história de vida, nem as mesmas angústias e desejos.

Para ficar mais claro, vou dar um exemplo de uma cliente: ela sonha que está no palco, junto a uma orquestra regida por um senhor já bem idoso e de barbas brancas compridas. Seu instrumento é o fagote. Fagote? Mas…como assim? Que instrumento mais inusitado! De repente, ela sente que deve parar de tocar e se retira do palco, deixando o idoso a reger a orquestra, sem sua presença. Aquele sonho não fazia o menor sentido para ela. Nunca havia posto a mão em um…fagote, meu Deus! Que isso? Se ainda fosse violino… Mas, não! E ficou tão impressionada com o sonho que pôs-se a pesquisar. Descobriu que fagote vem do verbo italiano “fagottare”, que quer dizer “retirar-se de cena”. E não havia sido isso mesmo que ela havia feito? Deixou a orquestra e retirou-se do palco. Depois, em psicoterapia, descobriu o sentido: ela não precisava estar em cena o tempo todo. Podia dar-se ao luxo de deixar a regência e o resto dos trabalhos a quem de direito. Não precisava ser supermulher, supermãe, superprofissional, superfilha, supertudo, super, super, super…Superfunções que já lhe cansavam, havia tempos. Podia, tranquilamente, retirar-se do palco. Podia ficar nos bastidores vendo os outros trabalhando. Podia desfrutar mais a vida. Esse sonho foi libertador e minha cliente deu um salto considerável em sua terapia.

O inconsciente se apresenta, também, na repetição de fatos e acontecimentos.  Exemplo: um homem se casa 3 vezes e seus casamentos sempre terminam porque foi traído. Onde é que está o “nó” dessa pessoa? Por que a repetição? Que tipo de comportamento seu leva as mulheres com quem se casa a identificarem nele uma pessoa passível de traição. O traído não saberá, até que resolva pôr-se a trabalho, em terapia ou análise. Mas, podemos quase afirmar que, se ele não resolver essa questão, o provável é que se case 4, 5, 6 vezes e que seus casamentos posteriores também terminem pelo mesmo motivo.

Assim é o inconsciente: como um iceberg, do qual só enxergamos uma pequena parte emergente. Mas, se quisermos caminhar rumo ao nosso autoconhecimento, teremos que mergulhar profundamente para descobrir o que existe nas profundezas do nosso ser. Se não for assim, como disse o psicanalista suíço Carl Gustav Jung, continuaremos a chamar nossas desgraças de destino.

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